
Bem lembro… Quarta-Feira. Um meio de semana meio preguiçoso, meio ébrio. O bar não estava tão cheio, pois a maioria das pessoas que o frequentavam estavam no Free Jazz Festival e, acabadas as apresentações, de lá tinham tomado outros destinos. A tantas entram lá pela porta, primeiramente, Boyd, ainda “piá”, todo esquisitão e falando uma única palavra “whiskey”! Depois o Dave, Leroi, o Stefan e o Carter. Hum… Ninguém os conhecia por aqui, foram apenas “encaixados” no Free Jazz pela sua música feita de apresentação em apresentação, sem presença de mídia, mas que estava aquecendo um universo novo chamado “grunge”. Eu, pessoalmente, os conheci nessa quarta-feira, num “boteco-cult” de Curitiba. Ano 1998. Como sempre alguém “berra”: PLAY SOMETHING! com toda aquela conhecida ebriedade. Sem embaraços tomaram os instrumentos que tinham ainda em mãos (juntamente com outros ali por perto) e saiu, meio de improviso, “so much to stay”, só um violãozinho meio choco, meio esquisito, mas que (dava para ver) ia sair um caldinho… Os outros se juntaram e, notadamente, percebeu-se algo diferente, esquisito, uma sonoridade incomum, com harmonia sofisticada, com madeira, violino, corda, bateria e violão tão bem definidos que, no meio de “tanta” bebida era interessante. O saxofone realmente ficou marcado naquela noite justamente porquê não tinha o “som de pato grasnando” que eu não gostava… Ali conheci LeRoi, meio que distantemente, afastado pela ebriedade e pela língua que dominava tão pouco. Depois “abracei-me” com um de seus CDs (que eles traziam a tiracolo para a venda, como o Grupo Viento Sur lá da praça) e transformei-me em um de seus apreciadores.
Como teu epitáfio selarei a única palavra possível “saudade”. Faltará a mim, LeRoi, aquela curta distância e o saxofone enervado. Encontre novos caminhos para tua habilidade.
by Sergio Domingues
contemplando peco.
cavalos desabridos as emoções.
em espanto as mãos relaxam.
tudo coração.
entrelinhas, tantas, que desejo: sede.
ventre telúrico: condutor de sangues
- rastros dos sonhos.
asas, onde fui posto?
o cheiro ah! um mel, que excita os sentidos,
exalado da boca dos signos.
feérico desejo de ser deus entre deuses
homem entre homens.
por que me incitas?
por que me breves?
sigo com olhos em ti.
sigo sentindo carícias,
vôo eternamente efêmero de toques,
planando lua pelos ares.
entretanto raios e redes teces:
lança-as - vagas sibilantes;
lança-as - Ícaro de auroras;
lança-as.
vida
dádiva que somente mulher colhe
tecendo os toques
nos limites do vôo
e do beijo.
by Sergio Domingues
Ômega
vi no teu riso a penumbra
e os silêncios
não vi flores nem demônios
de desassossegos
vi as serpentes
que se consomem
e anjos de desesperos
vi a morte e o desejo
consumidos no início
do teu beijo
e não havia mais nada
era um mundo maior
dentro do medo
by Sergio Domingues
Beta
perto aproximo nossas faces
frases certas que no momento esqueço
deixo-as todas mágicas como o silêncio
das estrelas fixas no firmamento
by Sergio Domingues
Tenho obsessões e muitas,
obrigatórias, fortuitas,
que pululam
nos porões da culpa.
A obsessão, por exemplo,
de catar palavras
no dicionário do vento.
Enfileirá-las após,
secá-las a contento
como passas ao sol
do que eu invento.
A obsessão de chegar
a tempo - nos compromissos,
nos comícios
e chegando
não ficar.
E a de ser objetivo
nos meus assuntos de alçada,
sem silogismo de horas,
sem premissa ou bacamarte
nos autos de sua estória.
A obsessão que me confina,
entre as paredes da sina,
é a de lucros e perdas.
Esta reafirma com destreza
a liga de uma fome
mais tardia, mais farta.
O capital e sua nostalgia
de espada em bainha.
Aberta ao meio
a obsessão é dor
que vai
à medula das coisas
sem rodeio.
É fixa no que fixa
e tão certeira,
adulta, burgomestra, governanta
seguindo uma seita discordante
em todos os princípios indistintos.
Absorve, absolve, recrimina
e por fim a questão é disciplina.
Com tantas obsessões
no quintal,
com tantas obsessões
de bem e mal,
o mistério é que morremos
aqui, ali, no juízo universal.
NEJAR, Carlos. Obra Poética I. Pág. 287 a 289. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
Entro no mundo: sou nele o que me falta.
Sou nele, não a arte mais cordata,
o mais avaro engenho.
Sou nele a sentença onde condeno.
E o mundo encontrou-se por inteiro
naquilo que falhou, naquele veio
de dor. Não era o que guardava,
o que fechava em si como uma draga.
O mundo - esse processo sempre em pauta
e julgamento. Nunca marca
no rol de culpados. O mundo
não consagra os seus súditos.
Não consagra o que provém
de alheia flauta.
Entro no mundo e ele me separa.
Torno-me inscrição de seus pesares,
do baralho de cartas,
da mortífera faca.
NEJAR, Carlos. Obra Poética I. Pág. 287. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
Antes de mais um dia, a madrugada. Como oração matinal, lembro-me de invernos que já foram, de manhãs que não mais serão e da instabilidade do tempo, que bailava com músicas e timbres que, hoje, nos soam nostálgicos e indivisíveis. Ah! Amiga Olívia, quisera ter o poder sobre essa ampulheta invisível, reverter para mim os grãos de areia, voltar-me para o momento (e quisera apenas momentos!) em que a tua música bailava insustentável, crítica e impossível. Essa sensação só possuem aqueles que colheram contigo aquele fragmento, aquela mão e o gosto dos silêncios. Voltar-me com oração naqueles momentos é me purificar para enfrentar esse novo dia em que, novamente, ouvirei pedras, caminharei entre o fogo cerrado e a gota incerta que é a vida, que em paira bailarina na tua voz.
Beatriz, Olívia Byington em Flávio Cavalcanti.
estava ali sim, e quisera que não estivesse. Sempre sinto as pernas tremerem após dançar contigo, isso é um fato inevitável. Por mais que tente evitar o máximo nessas circuntâncias, vejo seu olhar se aproximar, sinto o teu cheiro, o toque das tuas mãos e o súbito frio que me invade. E no silêncio o fogo. Ah! O teu riso tudo carrega, as fumaças, os cheiros, as sensações, o chão, tudo, tudo, absolutamente tudo, até onde não imagino e não mensuro. Entretanto esse instante passa, como tu sempre passas quando despertas meu desejo. De repente o início, os gritos, a ação, e o mundo descortinado deste morro. Para cima! E assim grito porquê bem sei que abaixo apenas corpos, sangue e pó, histórias interrompidas pelo fluxo que a própria história constrói e destroi, numa espiral e numa serpente. Entregando-me sei que aproximo meu hálito do teu, o meu beijo do passado e as lembranças do agora, enquanto grito: Para cima! Fogo!
(Romeu parte da casa do boticário, enquanto pensa no futuro ato)
Assim, brevemente, passarei. As plantas sentirão fluir vento matinal e a aurora estará plena. Ah! Noite que se despede! Julieta, a cantiga que a embala, os sombrios mantos que a abrigam, descerão indolentes para que assim desfiles! Apenas sorriso e o insustentável querer - esse sem fronteiras, sem limites, sem adeus, apenas palavra e momento paralisados enquanto sorverei teu sorriso, tragarei seus lábios e não me sintirei roubado de ti. Outroras fixos que não mais se repetirão. Serei embalando pelo aconchego de passado no frio beijo dos teus lábios, das tuas mãos fugidias, num céu que jamais será nosso, posto que partiu o desejo.
(baseado em Romeu e Julieta, de William Shakespeare).